{"id":1977,"date":"2020-07-02T20:41:04","date_gmt":"2020-07-02T20:41:04","guid":{"rendered":"https:\/\/centrobrasileirointegrado.com.br\/mg\/antigo\/?p=700"},"modified":"2020-07-02T20:41:04","modified_gmt":"2020-07-02T20:41:04","slug":"principios-da-educacao-online-para-sua-aula-nao-ficar-massiva-nem-macante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/centrobrasileirointegrado.com.br\/mg\/principios-da-educacao-online-para-sua-aula-nao-ficar-massiva-nem-macante\/","title":{"rendered":"Princ\u00edpios da Educa\u00e7\u00e3o Online: para sua aula n\u00e3o ficar massiva nem ma\u00e7ante!"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 muitos anos temos praticado e pesquisado Educa\u00e7\u00e3o a Dist\u00e2ncia e Educa\u00e7\u00e3o Online, mas nunca poder\u00edamos imaginar que, de um dia para o outro, ou as pessoas estariam aprendendo-ensinando pelas tecnologias digitais em rede, ou estariam com as aulas paralisadas por conta de um v\u00edrus (PIMENTEL, ARAUJO, 2020a). Acompanhamos, surpresos, o corre-corre de alguns colegas professores que n\u00e3o sabiam, ao certo, o que fazer: que abordagem pedag\u00f3gica empregar?, que tecnologias utilizar?, com que conte\u00fados trabalhar?, como conversar com os alunos?, que situa\u00e7\u00f5es de aprendizagem realizar?, como realizar a media\u00e7\u00e3o docente?, como avaliar online?<\/p>\n<p>Para cada uma dessas perguntas, que acreditamos serem as mais importantes para pensarfazer a educa\u00e7\u00e3o em tempos de pandemia (e tamb\u00e9m na p\u00f3s-pandemia), queremos apresentar as reflex\u00f5es que fomos tecendo ao longo de nossos anos de pr\u00e1tica e pesquisa na modalidade a dist\u00e2ncia empregando a abordagem da educa\u00e7\u00e3o online. Organizamos em \u201cprinc\u00edpios\u201d as li\u00e7\u00f5es aprendidas at\u00e9 agora.<\/p>\n<p>Princ\u00edpios da Educa\u00e7\u00e3o Online<\/p>\n<p>Princ\u00edpios da Educa\u00e7\u00e3o Online<\/p>\n<p>Este \u00e9 um momento oportuno para discutirmos nossas pr\u00e1ticas did\u00e1tico-pedag\u00f3gicas, pois estamos vivenciando uma situa\u00e7\u00e3o sem precedentes. Mesmo quem tem experi\u00eancia com Educa\u00e7\u00e3o a Dist\u00e2ncia sabe que a situa\u00e7\u00e3o atual \u00e9 diferente, h\u00e1 restri\u00e7\u00f5es e potencialidades que a difere do que usualmente se pratica na modalidade a dist\u00e2ncia. Queremos aproveitar este momento para abrir um di\u00e1logo para nos informarmos e nos formarmos no coletivo. \u00c9 nessa perspectiva dial\u00f3gica, para promover a partilha e a reflex\u00e3o com esta comunidade, que apresentamos nossas proposi\u00e7\u00f5es sobre educa\u00e7\u00e3o online.<\/p>\n<p>Como ponto de partida, para nos entendermos, precisamos diferenciar Educa\u00e7\u00e3o a Dist\u00e2ncia (EAD), que \u00e9 uma modalidade educacional alternativa \u00e0 educa\u00e7\u00e3o presencial, daquilo que denominamos de Educa\u00e7\u00e3o OnLine (EOL), que \u00e9 uma abordagem did\u00e1tico-pedag\u00f3gica.<\/p>\n<p>Na Educa\u00e7\u00e3o a Dist\u00e2ncia, muitas vezes os computadores em rede s\u00e3o usados para difundir conte\u00fados e, em alguns casos, at\u00e9 mesmo para apresentar os conte\u00fados, corrigir automaticamente as respostas dos alunos, recomendar o estudo de novos conte\u00fados em fun\u00e7\u00e3o do desempenho, ou da personalidade ou do estado emocional do aluno, entre outras a\u00e7\u00f5es j\u00e1 possibilitadas pela intelig\u00eancia artificial (JACQUES; NUNES, 2020; VICARI, 2020). Nessa concep\u00e7\u00e3o, frequentemente pensamos em um aluno estudando os conte\u00fados sozinho (autoaprendizagem, autoestudo), no \u201cseu pr\u00f3prio ritmo\u201d, e o computador sendo utilizado como uma \u201cm\u00e1quina de ensinar\u201d, como preconizado por Skinner (~1960), o que fez emergir a cren\u00e7a de que os professores um dia ser\u00e3o substitu\u00eddos por computadores. Nessa concep\u00e7\u00e3o, os computadores representam uma evolu\u00e7\u00e3o das m\u00eddias e n\u00e3o modificam o modelo de comunica\u00e7\u00e3o de massa, predominantemente unidirecional, que tipicamente caracteriza a abordagem instrucionista-massiva que ainda hoje \u00e9 muito praticada na modalidade a dist\u00e2ncia \u2013 n\u00e3o \u00e9 essa a concep\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica que estamos propondo para as suas aulas online!<\/p>\n<p>Concep\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica massivo-instrucionista frequentemente empregada na EAD<\/p>\n<p>Alertamos que o \u201cruim\u201d na modalidade presencial torna-se o \u201cp\u00e9ssimo\u201d na modalidade a dist\u00e2ncia: a abordagem instrucionista-massiva levada ao extremo por \u201ccursos massivos online\u201d (MOOC) resulta em alt\u00edssimos \u00edndices de evas\u00e3o, com taxa de at\u00e9 95% de abandono (SILVA; BERNARDO JR; OLIVEIRA, 2014). Ressaltamos que a modalidade a dist\u00e2ncia n\u00e3o implica necessariamente a ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas instrucionista-massivas; temos praticado, nessa modalidade, o que Edm\u00e9a Santos (2009, 2019) denomina \u201cEduca\u00e7\u00e3o Online\u201d:<\/p>\n<p>Assumimos desde j\u00e1 que a educa\u00e7\u00e3o online n\u00e3o \u00e9 apenas uma evolu\u00e7\u00e3o das gera\u00e7\u00f5es da EAD, mas um fen\u00f4meno da cibercultura. \u00c9 comum encontrar na literatura especializada em educa\u00e7\u00e3o e tecnologias que a educa\u00e7\u00e3o online \u00e9 uma evolu\u00e7\u00e3o ou nova gera\u00e7\u00e3o da modalidade de EAD. Discordamos, mesmo sem ignorar ou descartar essa possibilidade, com essa afirmativa simplista. [\u2026] A educa\u00e7\u00e3o online \u00e9 o conjunto de a\u00e7\u00f5es de ensino-aprendizagem ou atos de curr\u00edculo mediados por interfaces digitais que potencializam pr\u00e1ticas comunicacionais interativas e hipertextuais. (SANTOS, 2009, p. 5659,5663)<\/p>\n<p>A proposi\u00e7\u00e3o de efetivar uma Educa\u00e7\u00e3o Online, como aqui caracterizada, parte da compreens\u00e3o de que vivemos, hoje, em um (ciber)espa\u00e7o-tempo prop\u00edcio \u00e0 aprendizagem em rede: conectar-se, conversar, postar, curtir, comentar, compartilhar, colaborar, tornar-se autor, expor-se, negociar sentidos, co-criar \u2026 que outras palavras lhe v\u00eam \u00e0 mente quando falamos de valores e pr\u00e1ticas que caracterizam a nossa (ciber)cultura contempor\u00e2nea?<\/p>\n<p>Eu, na cibercultura&#8230; a cibercultura em mim<\/p>\n<p>N\u00e3o estamos sozinhos nessas proposi\u00e7\u00f5es \u2013 v\u00e1rios s\u00e3o os fil\u00f3sofos e pesquisadores que h\u00e1 d\u00e9cadas sustentam que vivenciamos um momento revolucion\u00e1rio em nossa sociedade, principalmente a partir de meados da d\u00e9cada de 1990 com a abertura da internet para uso comercial, que a tornou acess\u00edvel para a popula\u00e7\u00e3o em geral intensificando as transforma\u00e7\u00f5es que os computadores em rede j\u00e1 estavam provocando em nossa sociedade (NICOLACI-DA-COSTA; PIMENTEL, 2011). Algumas de nossas inspira\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>Podemos\/devemos (re)pensar nossos desenhos did\u00e1ticos para o digital em rede nos inspirando nos valores e pr\u00e1ticas da cibercultura. O cen\u00e1rio sociot\u00e9cnico contempor\u00e2neo, de nossa cultura estruturada pelas tecnologias digitais em rede, vem nos desafiando a reconfigurar a educa\u00e7\u00e3o formal para estarmos mais em sintonia com o \u201cesp\u00edrito de nosso tempo\u201d. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa, unidirecionais, que foram caracter\u00edsticos do s\u00e9culo passado, hoje nos parecem datados, bem como nos parecem ultrapassadas as pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas instrucionista-massivas que muitas vezes s\u00e3o equivocadamente confundidas com a pr\u00f3pria modalidade a dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Ao anunciar os \u201cPrinc\u00edpios da Educa\u00e7\u00e3o Online\u201d, queremos mostrar a possibilidade de outras pr\u00e1ticas did\u00e1tico-pedag\u00f3gicas para a modalidade a dist\u00e2ncia. A seguir, apresentamos um resumo de cada um dos princ\u00edpios (e nas pr\u00f3ximas postagens vamos publicar um artigo sobre cada um deles \u2013 acompanhe a nossa s\u00e9rie!). Embora apresentados um a um, os princ\u00edpios est\u00e3o correlacionados, s\u00e3o interdependentes, fazem parte de um conjunto coerente de concep\u00e7\u00f5es e a\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para efetivar a Educa\u00e7\u00e3o Online: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel promover aprendizagem colaborativa (4\u00ba princ\u00edpio), se n\u00e3o houver conversa\u00e7\u00e3o entre todos (5\u00ba princ\u00edpio); para efetivar a colabora\u00e7\u00e3o (4\u00ba princ\u00edpio) promovendo conversa\u00e7\u00e3o (5\u00ba princ\u00edpio) e coautorias (6\u00ba princ\u00edpio), \u00e9 preciso haver media\u00e7\u00e3o docente ativa (7\u00ba princ\u00edpio); atividades autorais (6\u00ba princ\u00edpio) s\u00f3 fazem sentido quando o conhecimento \u00e9 entendido como obra aberta (1\u00ba princ\u00edpio); entre outras rela\u00e7\u00f5es. A numera\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios \u00e9 apenas para facilitar a refer\u00eancia, pois n\u00e3o h\u00e1 uma ordem entre eles.<\/p>\n<p>Princ\u00edpio 1 \u2013 Conhecimento como \u201cobra aberta\u201d (em vez de \u201cmensagem fechada\u201d)<br \/>\nConhecimento como obra aberta<\/p>\n<p>O conhecimento cient\u00edfico \u00e9 o resultado de uma constru\u00e7\u00e3o social. Bruno Latour (2000) descreveu o processo social de constru\u00e7\u00e3o de conhecimentos cient\u00edficos como uma din\u00e2mica em que diferentes atores disputam narrativas capazes de explicar um fen\u00f4meno em investiga\u00e7\u00e3o, inicialmente cheios de incertezas, at\u00e9 que as controv\u00e9rsias v\u00e3o sendo encerradas e o conhecimento se fecha em \u201cfato cient\u00edfico\u201d, indiscut\u00edvel (uma \u201ccaixa preta\u201d), pronto para ser difundido na sociedade como uma verdade\u2026 at\u00e9 que um discordante reabra as controv\u00e9rsias. O conhecimento cient\u00edfico, portanto, embora possa ser divulgado como fechado, est\u00e1 sempre sujeito a reabertura, a novas teceduras. Na Educa\u00e7\u00e3o Online, partimos dessa concep\u00e7\u00e3o epistemol\u00f3gica do conhecimento como \u201cobra aberta\u201d (ECO, 1962), poss\u00edvel de ser ressignificado e cocriado, num movimento sem fim. Quando o conhecimento \u00e9 entendido como produto acabado, fechado, s\u00f3 resta aos alunos assimilarem sem questionar os conte\u00fados que um professor ou o computador apresenta, numa perspectiva banc\u00e1ria de educa\u00e7\u00e3o que h\u00e1 d\u00e9cadas temos combatido (ARAUJO; PIMENTEL, 2020):<\/p>\n<p>Em lugar de comunicar-se, o educador faz \u201ccomunicados\u201d e dep\u00f3sitos que os educandos, meras incid\u00eancias, recebem pacientemente, memorizam e repetem. Eis a\u00ed a concep\u00e7\u00e3o \u201cbanc\u00e1ria\u201d da educa\u00e7\u00e3o, em que a \u00fanica margem de a\u00e7\u00e3o que se oferece aos educandos \u00e9 a de receberem os dep\u00f3sitos, guard\u00e1-los e arquiv\u00e1-los. [\u2026] Nesta distorcida vis\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 criatividade, n\u00e3o h\u00e1 transforma\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 saber. S\u00f3 existe saber na inven\u00e7\u00e3o, na reinven\u00e7\u00e3o, na busca inquieta, impaciente, permanente, que os homens fazem no mundo, com o mundo e com os outros. (FREIRE, 1970, p 80-81)<\/p>\n<p>Princ\u00edpio 2 \u2013 Curadoria de conte\u00fados + s\u00ednteses e roteiros de estudo (em vez da produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fados pr\u00f3prios para EAD)<br \/>\nCuradoria de conte\u00fados<\/p>\n<p>Na atualidade, quando queremos aprender algo, geralmente consultamos a web: fazemos uma busca no Google, navegamos nas p\u00e1ginas interconectadas da Wikip\u00e9dia, assistimos a uma videoaula no YouTube, consultamos uma apresenta\u00e7\u00e3o compartilhada no SlideShare, lemos uma mat\u00e9ria num blog, baixamos um artigo cient\u00edfico, consultamos p\u00e1ginas no Facebook, escrevemos perguntando para um amigo ou para um grupo no WhatsApp, entre outras t\u00e1ticas (PIMENTEL, 2019). A web se tornou nossa principal fonte de conhecimento, com conte\u00fados online em m\u00faltiplas linguagens e formatos dispon\u00edveis a um clique de dist\u00e2ncia. Considerando a abund\u00e2ncia de conte\u00fados dispon\u00edveis online relacionados a nossas aulas, n\u00f3s, professores, podemos desempenhar o papel de \u201ccuradores\u201d.<\/p>\n<p>\u201cCuradoria de Conte\u00fado \u00e9 um termo que descreve o ato de encontrar, agrupar, organizar ou compartilhar o melhor e mais relevante conte\u00fado sobre um assunto espec\u00edfico\u201d (BHARGAVA, 2011). O professor, ao realizar a curadoria, est\u00e1 mapeando, organizando e dando visibilidade a determinados conte\u00fados. Conjugado com a curadoria, pode ser adequado realizar s\u00ednteses, seja no formato de uma apresenta\u00e7\u00e3o ou de um pequeno texto interligando os conte\u00fados mapeados, o que resulta em roteiros de estudo. Al\u00e9m disso, por considerarmos o conhecimento como obra aberta e tecido colaborativamente, tamb\u00e9m devemos considerar os conte\u00fados produzidos pelos pr\u00f3prios alunos da turma.<\/p>\n<p>A curadoria de conte\u00fados online se contrap\u00f5e \u00e0s pr\u00e1ticas de produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fados espec\u00edficos para a EAD, sejam livros impressos (BARRETO et al., 2007), weblivros (PIMENTEL; SANTOS; SAMPAIO, 2017), v\u00eddeos (SOUZA, 2017) etc. A produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fados novos \u00e9 uma estrat\u00e9gia v\u00e1lida e custosa, mas n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica alternativa.<\/p>\n<p>Princ\u00edpio 3 \u2013 Ambi\u00eancias computacionais diversas (em vez de se restringir aos servi\u00e7os do Ambiente de Aprendizagem)<br \/>\nAmbi\u00eancias computacionais<\/p>\n<p>Na modalidade a dist\u00e2ncia, \u00e9 fundamental a ado\u00e7\u00e3o de um Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA), como Moodle, Google Classroom, Canvas, Grupo de Aprendizagem Social do Facebook, entre outros (GOMES; PIMENTEL, 2020). Contudo, a grande \u00eanfase que \u00e9 dada para o uso de AVA na modalidade a dist\u00e2ncia acabou disseminando uma cultura de confinamento e exclusividade, a tal ponto que os professores na EAD chegam a supor ser proibido usar outros sistemas computacionais, acreditando que tudo deva ser realizado dentro do AVA. Queremos combater essa ideia equivocada.<\/p>\n<p>Toda a Internet se apresenta como um vasto territ\u00f3rio com in\u00fameros (ciber)espa\u00e7os que podem ser configurados para a cria\u00e7\u00e3o de ambi\u00eancias voltadas para a realiza\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es de aprendizagem. Se os AVA foram os sistemas computacionais caracter\u00edsticos da 1\u00aa fase da Educa\u00e7\u00e3o Online (SANTOS; RIBEIRO; CARVALHO, 2020), hoje devemos nos apropriar tamb\u00e9m de outros sistemas computacionais, pois n\u00e3o h\u00e1 quaisquer impedimentos em tamb\u00e9m utilizar servi\u00e7os interativos online, aplicativos, redes sociais, editores colaborativos, entre tantas possibilidades ao nosso dispor.<\/p>\n<p>Princ\u00edpio 4 \u2013 Aprendizagem em rede, colaborativa (em vez de aprendizagem isolada)<\/p>\n<p>Quando o processo educacional se realiza mediado pelos computadores em rede, nossas pr\u00e1ticas e reflex\u00f5es nos levam a recomendar a aprendizagem em rede, colaborativa (TORRES; IRALA, 2014; PIMENTEL; FUKS, 2011; FUKS et al., 2011). N\u00e3o se trata de colocar os alunos para discutirem os conte\u00fados de uma disciplina apenas entre eles, sem um professor. Trata-se de construir o conhecimento colaborativamente, em grupo, valorizando-se os m\u00faltiplos saberes de cada aluno da turma com a media\u00e7\u00e3o de um bom professor. Nessa concep\u00e7\u00e3o, os computadores em rede s\u00e3o usados como meios de intera\u00e7\u00e3o social, n\u00e3o como m\u00e1quinas para ensinar, mas sim para conectar as pessoas.<\/p>\n<p>Princ\u00edpio 5 \u2013 Conversa\u00e7\u00e3o entre todos, em interatividade (em vez de apresenta\u00e7\u00e3o de conte\u00fados)<br \/>\nConversa\u00e7\u00e3o entre todos<\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o de conte\u00fados pelo \u201cditar do mestre\u201d, em que os alunos s\u00f3 podem falar eventualmente para tirar uma d\u00favida sobre o que foi exposto, n\u00e3o caracteriza uma conversa\u00e7\u00e3o genu\u00edna. A conversa\u00e7\u00e3o precisa estar aberta para o imprevis\u00edvel e se realizar na interatividade com os alunos e entre eles (SILVA, 2000). Cabe ao professor o planejamento da situa\u00e7\u00e3o conversacional e sua realiza\u00e7\u00e3o por meio de uma ambi\u00eancia computacional, lan\u00e7ando m\u00e3o de servi\u00e7os variados de conversa\u00e7\u00e3o pela internet (PIMENTEL, ARAUJO, 2020b). Por exemplo, podemos utilizar um sistema de videoconfer\u00eancia para realizarmos reuni\u00f5es s\u00edncronas no hor\u00e1rio que seria ocupado pela aula presencial; criar um grupo do WhatsApp para a conversa\u00e7\u00e3o informal e para a coordena\u00e7\u00e3o da turma; discutir os assuntos da disciplina por meio de grupos e f\u00f3runs de discuss\u00e3o ao longo da semana; usar bate-papo online (chat) para levantar diferentes pontos de vista sobre um assunto; realizar atendimento individualizado por mensagem instant\u00e2nea e email; entre outras possibilidades a serem arquitetadas para promover a conversa\u00e7\u00e3o na turma.<\/p>\n<p>Princ\u00edpio 6 \u2013 Atividades autorais inspiradas nas pr\u00e1ticas da cibercultura (em vez de \u201cestudo dirigido\u201d)<br \/>\nAtividades Online<\/p>\n<p>Em geral, os alunos gostam de atividades pr\u00e1ticas, pois sentem que \u201cs\u00f3 se aprende fazendo\u201d. Atividades pr\u00e1ticas e autorais (AMARAL; VELOSO; ROSSINI, 2020) oportunizam ao aluno aplicar e transformar os conhecimentos da disciplina, ressignificando-os. Como alternativas para a educa\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria de exposi\u00e7\u00e3o-assimila\u00e7\u00e3o de conte\u00fados, al\u00e9m da pr\u00f3pria Educa\u00e7\u00e3o Online que prop\u00f5e pr\u00e1ticas autorais inspiradas nas pr\u00e1ticas da cibercultura, tamb\u00e9m reconhecemos outras iniciativas, como Aprender Fazendo\/Aprendizagem Experiencial (DEWEY, 1916), Educa\u00e7\u00e3o do Trabalho (FREINET, 1949), Pedagogia Baseada em Projetos (BENDER, 2015), Metodologias Ativas (BACICH; MORAN, 2018), Sala de Aula Interativa (SILVA, 2000), Sala de Aula Invertida (BERGMANN; SAMS, 2018), entre outras proposi\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Queremos marcar a diferen\u00e7a das atividades inspiradas em pr\u00e1ticas da cibercultura daquelas atividades que se caracterizam como uma lista de exerc\u00edcios ou um question\u00e1rio, cujo objetivo \u00e9 \u201cfixar\u201d os conte\u00fados da disciplina, como frequentemente praticado na educa\u00e7\u00e3o instrucionista-massiva. Ressaltamos a import\u00e2ncia de atividades criativas que possibilitem a autoria criadora (BACKES, 2012) e que promovam multiletramentos (FERNANDES; MACIEL; SANTOS, 2020; BUZATO, 2006). Em tempos de cibercultura, com a \u201clibera\u00e7\u00e3o do polo de emiss\u00e3o\u201d (LEMOS, 2007), todos n\u00f3s nos tornamos autores em potencial. Nesse atual cen\u00e1rio sociot\u00e9cnico, n\u00f3s, professores, somos desafiados a formar alunos capazes de ler criticamente o mundo e tamb\u00e9m de atuar como autores transformadores da sociedade contempor\u00e2nea (LEMOS, 2010).<\/p>\n<p>Princ\u00edpio 7 \u2013 Media\u00e7\u00e3o docente online para colabora\u00e7\u00e3o (em vez de \u201ctutoria reativa\u201d)<br \/>\nMedia\u00e7\u00e3o docente online para colabora\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Para efetivar a educa\u00e7\u00e3o online, \u00e9 necess\u00e1rio realizar uma media\u00e7\u00e3o ativa voltada para a promo\u00e7\u00e3o da colabora\u00e7\u00e3o (SANTOS; CARVALHO; PIMENTEL, 2016), em que o professor desempenha o papel de dinamizador do grupo. Onde h\u00e1 colabora\u00e7\u00e3o e conversa\u00e7\u00e3o em rede, emergem d\u00favidas e conflitos que precisar\u00e3o ser mediados pelo professor e pelos colegas. Recomendamos a realiza\u00e7\u00e3o de uma media\u00e7\u00e3o partilhada e empregando uma \u201clinguagem emocional\u201d (LIMA; CARVALHO; COUTO JR, 2018; BRUNO, 2008), reconhecendo que as emo\u00e7\u00f5es expressadas nas conversas potencializam transforma\u00e7\u00f5es no conv\u00edvio social que se desdobram tamb\u00e9m no processo formativo.<\/p>\n<p>Sugerimos evitar a pr\u00e1tica da \u201ctutoria reativa\u201d (CASTRO; SANTOS, 2010), muito empregada na EAD instrucionista-massiva, em que um professor-tutor fica dispon\u00edvel por 1 ou 2 horas por semana para tirar d\u00favidas de centenas de alunos. Esse tipo de pr\u00e1tica leva a um esvaziamento da participa\u00e7\u00e3o dos alunos, resultando em desperd\u00edcio e desvaloriza\u00e7\u00e3o do trabalho docente.<\/p>\n<p>Princ\u00edpio 8 \u2013 Avalia\u00e7\u00e3o formativa e colaborativa, baseada em compet\u00eancias (em vez de apenas exames presenciais)<br \/>\nAvalia\u00e7\u00e3o online<\/p>\n<p>A modalidade a dist\u00e2ncia potencializa novas formas de avalia\u00e7\u00e3o. Os rastros que os alunos deixam nas ambi\u00eancias digitais ao participar das situa\u00e7\u00f5es de aprendizagem arquitetadas pelo professor possibilitam a realiza\u00e7\u00e3o de uma avalia\u00e7\u00e3o com base em compet\u00eancias, valorizando n\u00e3o apenas os conhecimentos (saber o que as coisas s\u00e3o, os conceitos, as f\u00f3rmulas), mas tamb\u00e9m as habilidades (o saber fazer, o conhecimento em a\u00e7\u00e3o) e as atitudes: presen\u00e7a, participa\u00e7\u00e3o e colabora\u00e7\u00e3o. Idealizamos a realiza\u00e7\u00e3o da avalia\u00e7\u00e3o online como uma a\u00e7\u00e3o coletiva, realizada n\u00e3o apenas pelo professor (heteroavalia\u00e7\u00e3o), mas tamb\u00e9m pelo pr\u00f3prio aprendente (autoavalia\u00e7\u00e3o) e por todos da turma (avalia\u00e7\u00e3o colaborativa, avalia\u00e7\u00e3o 360\u00ba), fugindo da resposta certo-errado e voltando-se para a valoriza\u00e7\u00e3o dos diferentes olhares, da compreens\u00e3o e da cr\u00edtica de todos os envolvidos no processo formativo. Que a avalia\u00e7\u00e3o seja feita numa perspectiva formativa, de maneira cont\u00ednua, voltada n\u00e3o apenas para aprovar ou reprovar ao final da disciplina, mas sim para apoiar a tomada de consci\u00eancia sobre o pr\u00f3prio processo de aprendizagem em curso, de tal maneira que os alunos percebam o que j\u00e1 aprenderam bem, o que precisam aprender mais e quais a\u00e7\u00f5es formativas devem realizar.<\/p>\n<p>Avalia\u00e7\u00e3o online<\/p>\n<p>A avalia\u00e7\u00e3o, na perspectiva da Educa\u00e7\u00e3o Online, \u00e9 um desafio, pois a pr\u00e1tica mais difundida de avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 a prova presencial, geralmente voltada para o exame do conhecimento assimilado pelo aluno, com uma corre\u00e7\u00e3o feita somente pelo professor com a intens\u00e3o de classificar o aluno em aprovado\/reprovado. Essa concep\u00e7\u00e3o de avalia\u00e7\u00e3o parte da perspectiva epistemol\u00f3gica do conhecimento como \u201cmensagem fechada\u201d (em vez de \u201cobra aberta\u201d \u2013 1\u00ba princ\u00edpio), podendo at\u00e9 desmotivar o aluno a participar e colaborar (4\u00ba princ\u00edpio), a realizar autorias e coautorias em rede (6\u00ba princ\u00edpio). Deve-se planejar uma avalia\u00e7\u00e3o com base nas atividades realizadas nos diversos sistemas computacionais utilizados na disciplina (3\u00ba princ\u00edpio), visando a promo\u00e7\u00e3o de uma atitude para a interatividade (5\u00ba princ\u00edpio) e considerando, nas conversas e nas autorias, as express\u00f5es do aprendizado dos alunos sobre os conte\u00fados e para al\u00e9m deles (2\u00ba princ\u00edpio), o que apoia a media\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica (7\u00ba princ\u00edpio) (SILVA; SANTOS, 2006; SANTOS; LIMA, 2016; ARA\u00daJO, 2018; ARA\u00daJO, 2013).<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel praticar os princ\u00edpios da educa\u00e7\u00e3o online na modalidade a dist\u00e2ncia?<br \/>\nReconhecemos que a modalidade a dist\u00e2ncia \u201cpode ser mais bem entendida a partir de princ\u00edpios que regem a produ\u00e7\u00e3o industrial, especialmente os de produtividade, divis\u00e3o do trabalho e produ\u00e7\u00e3o em massa\u201d (BELLONI, 2012), e que, nessa modalidade, frequentemente \u00e9 induzida a ado\u00e7\u00e3o da abordagem pedag\u00f3gica instrucionista-massiva e \u201cn\u00e3o acolhe propostas com outras concep\u00e7\u00f5es, eliminando, assim, a possibilidade de reconhecimento do trabalho profissional do professor na modalidade a dist\u00e2ncia\u201d (LAPA; PRETTO, 2010). Mas, insistimos, a modalidade a dist\u00e2ncia n\u00e3o implica necessariamente a abordagem instrucionista-massiva.<\/p>\n<p>Reconhecemos, tamb\u00e9m, a urg\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas que garantam a inclus\u00e3o digital (e cibercultural) de todos os alunos, pois a ONU j\u00e1 declarou que o acesso \u00e0 internet \u00e9 um direito universal e, no Brasil, o \u201cdireito de acesso \u00e0 internet a TODOS\u201d \u00e9 parte do nosso Marco Civil da Internet desde 2014 (Lei 12.965\/14). Sem esse acesso, fundamental para o exerc\u00edcio da cidadania em nossa atual sociedade estruturada pelas tecnologias digitais em rede, temos visto institui\u00e7\u00f5es de ensino interromperem as aulas, gestores voltarem-se para os valores e pr\u00e1ticas caracter\u00edsticas da comunica\u00e7\u00e3o de massa t\u00edpica do s\u00e9culo passado (como usar a televis\u00e3o para a dissemina\u00e7\u00e3o de conte\u00fados), e professores adotarem inadvertidamente pr\u00e1ticas instrucionista-massivas levando em considera\u00e7\u00e3o a abordagem hegem\u00f4nica da EAD.<\/p>\n<p>Reconhecemos, por fim, a necessidade de promover a forma\u00e7\u00e3o de professores para o exerc\u00edcio respons\u00e1vel da doc\u00eancia online. Esperamos que este texto seja uma contribui\u00e7\u00e3o nesse sentido, para que as aulas online, na modalidade a dist\u00e2ncia, n\u00e3o sejam nem massivas nem ma\u00e7antes. Sabemos, contudo, que \u00e9 preciso construir muitos outros saberes para o exerc\u00edcio da doc\u00eancia online.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea teve f\u00f4lego para ler at\u00e9 aqui, \u00e9 porque considerou \u00fateis as discuss\u00f5es iniciadas nesta postagem. Se voc\u00ea curtiu, ent\u00e3o compartilhe nas suas redes sociais; vamos viralizar os princ\u00edpios da educa\u00e7\u00e3o online, fazer este texto chegar a outros professores que est\u00e3o muito al\u00e9m das redes sociais dos pr\u00f3prios autores \u2013 afinal, essa tamb\u00e9m \u00e9 uma pr\u00e1tica da cibercultura, que tanto nos inspirou e nos motivou a produzir as reflex\u00f5es aqui apresentadas.<br \/>\nFonte: Horizontes<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 muitos anos temos praticado e pesquisado Educa\u00e7\u00e3o a Dist\u00e2ncia e Educa\u00e7\u00e3o Online, mas nunca poder\u00edamos imaginar que, de um dia para o outro, ou as pessoas estariam aprendendo-ensinando pelas tecnologias digitais em rede, ou estariam com as aulas paralisadas por conta de um v\u00edrus (PIMENTEL, ARAUJO, 2020a). 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