{"id":1980,"date":"2020-07-13T19:24:40","date_gmt":"2020-07-13T19:24:40","guid":{"rendered":"https:\/\/centrobrasileirointegrado.com.br\/mg\/antigo\/?p=738"},"modified":"2020-07-13T19:24:40","modified_gmt":"2020-07-13T19:24:40","slug":"os-desafios-da-eja-para-incluir-quem-a-escola-abandonou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/centrobrasileirointegrado.com.br\/mg\/os-desafios-da-eja-para-incluir-quem-a-escola-abandonou\/","title":{"rendered":"Os desafios da EJA para incluir quem a escola abandonou."},"content":{"rendered":"<p>A\u00a0Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos (EJA)\u00a0pode ser vista\u00a0como o \u00e1pice do retrato das desigualdades sociais e econ\u00f4micas do Brasil. Isto porque congrega em si duas faces: as fragilidades de uma escola excludente diante da diversidade e, no outro extremo, o direito de aprender independentemente da idade. Com isso, carrega tamb\u00e9m a responsabilidade de n\u00e3o excluir estas pessoas uma vez mais.<\/p>\n<p>Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios (PNAD) de 2017 deixam claro\u00a0quem a escola abandonou: sete em cada dez brasileiros sem Ensino Fundamental completo t\u00eam renda familiar de at\u00e9 um sal\u00e1rio m\u00ednimo. No Nordeste, 52,6% dos brasileiros sequer conclu\u00edram o Fundamental, enquanto no Sudeste, 51,1% t\u00eam pelo menos o\u00a0Ensino M\u00e9dio. As pessoas brancas t\u00eam 2 anos a mais de escolariza\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pretas e pardas e mais chances de chegar ao n\u00edvel superior: 22,2% contra 8,8%.<\/p>\n<p>As desigualdades tamb\u00e9m envolvem as\u00a0quest\u00f5es de g\u00eanero e identidade. A propor\u00e7\u00e3o de mulheres jovens que n\u00e3o estudaram por conta da responsabilidade exclusiva de desempenhar os afazeres dom\u00e9sticos ou cuidar de pessoas \u00e9 32,6 vezes superior \u00e0 dos homens envolvidos nessas atividades. Al\u00e9m disso, no Brasil, a evas\u00e3o escolar de pessoas trans chega a 82%.<\/p>\n<div class=\"box box-right\">\n<p>Essa reportagem integra o\u00a0<strong>Especial\u00a0Elei\u00e7\u00f5es 2018 \u2013 Caminhos para a Escola Brasileira<\/strong>, do\u00a0Centro de Refer\u00eancias em Educa\u00e7\u00e3o Integral. A s\u00e9rie de mat\u00e9rias aborda como os principais temas da educa\u00e7\u00e3o se relacionam com o projeto de pa\u00eds em disputa com as elei\u00e7\u00f5es que se avizinham, dando \u00eanfase para as quest\u00f5es identit\u00e1rias brasileiras,\u00a0direitos humanos\u00a0e pol\u00edticas p\u00fablicas de educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<p>\u201cA\u00a0EJA\u00a0n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um problema educacional, mas pol\u00edtico e social\u201d, resume Sonia Couto, coordenadora do\u00a0Centro de Refer\u00eancia Paulo Freire, do instituto hom\u00f4nimo. \u201cPara resolver um lado, tem que resolver os outros.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 isso, contudo, que se v\u00ea na pr\u00e1tica. A especialista explica que os alunos evadem ou migram para a EJA em raz\u00e3o das falhas presentes no Ensino Fundamental e M\u00e9dio. O Estado, por sua vez, n\u00e3o assume sua responsabilidade de resolver as quest\u00f5es que levam ao abandono escolar, culpando estudantes e professores pelo fracasso escolar e fazendo com que a EJA tenha mais um car\u00e1ter assistencialista do que de direito, como assegurado pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal e a Lei de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o Nacional (LDB).<\/p>\n<p>Maria Margarida Machado, professora da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal de Goi\u00e1s (UFG), concorda: \u201cUsam a modalidade para transferir a responsabilidade, encobrindo a obriga\u00e7\u00e3o do Estado de garantir que esses adolescentes possam concluir a Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica no tempo adequado.\u201d<\/p>\n<p>Com a crise econ\u00f4mica e os recentes cortes de investimento na Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica,\u00a0exacerbados\u00a0na\u00a0Emenda Constitucional 95, que limitou o teto de investimentos em Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade por 20 anos, o cen\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 promissor.<\/p>\n<p>Um levantamento de fevereiro de 2018 do\u00a0Banco Mundial\u00a0indica que jovens de 15 a 25 anos vivendo em lares afetados por quedas nos rendimentos t\u00eam 2,3% mais chances de abandonar os estudos.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 uma precariza\u00e7\u00e3o total da educa\u00e7\u00e3o. Agora, com os investimentos limitados, tende-se a baixar ainda mais a qualidade na Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica e produzir cada vez mais alunos da EJA, analfabetos e analfabetos funcionais\u201d, explica Sonia.<\/p>\n<h3>Migra\u00e7\u00e3o para a EJA: causas e consequ\u00eancias<\/h3>\n<p>No Brasil, 30% dos alunos da EJA t\u00eam entre 15 e 19 anos, segundo o\u00a0Censo Escolar de 2017. A presen\u00e7a de adolescentes neste espa\u00e7o se d\u00e1 porque muitos precisam trabalhar no per\u00edodo diurno, mas n\u00e3o querem abandonar os estudos. Tamb\u00e9m por causa da distor\u00e7\u00e3o idade-s\u00e9rie resultante de uma cultura de fracasso escolar ou por serem induzidos a se preparar para o ENCCEJA e obter um certificado mais rapidamente.<\/p>\n<div class=\"olho olho-right\">\n<p>A\u00a0EJA persiste em\u00a0um modelo compensat\u00f3rio, com tempo e conte\u00fados reduzidos, mais distante de uma\u00a0forma\u00e7\u00e3o integral\u00a0e emancipat\u00f3ria<\/p>\n<\/div>\n<p>Maria Margarida Machado explica que essa migra\u00e7\u00e3o traz preju\u00edzos, sobretudo, para os adolescentes, porque a EJA persiste em um modelo compensat\u00f3rio, com tempo e conte\u00fados reduzidos, mais distante de uma\u00a0forma\u00e7\u00e3o integral\u00a0e emancipat\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u201cA escola deve preparar os alunos\u00a0para lidar com o mundo de hoje e para entender a si e aos outros enquanto seres humanos que vivem coletivamente, capazes de alterar o meio. N\u00e3o \u00e9 um certificado que garante isso\u201d, diz a professora.<\/p>\n<p>Para ela, a exclus\u00e3o da EJA do Sistema de Avalia\u00e7\u00e3o da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica (SAEB) colabora para a marginaliza\u00e7\u00e3o desta\u00a0modalidade de ensino. \u201cSe o SAEB existe para melhorar a qualidade da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica, ao retirar a EJA da avalia\u00e7\u00e3o, encobre-se a qualidade do sistema inteiro, inclusive, porque \u00e9 do interesse de muitas escolas que os alunos migrem para a EJA para, com isso, elevar sua nota nas avalia\u00e7\u00f5es\u201d, diz.<\/p>\n<h3>Pol\u00edticas p\u00fablicas e financiamento da EJA<\/h3>\n<p>A maior parte do dinheiro destinado \u00e0 EJA vem do\u00a0Fundeb, o Fundo de Manuten\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica, mas o repasse que a\u00a0modalidade obt\u00e9m \u00e9 inferior \u00e0s demais etapas.\u00a0\u201cDesde a implanta\u00e7\u00e3o do Fundo, a matr\u00edcula na EJA tem o menor valor. Se um aluno do Fundamental vale entre 1 ou 1,2, o da EJA vale 0,8\u201d, explica Maria Margarida.<\/p>\n<div class=\"olho olho-right\">\n<p>\u201cSem ofertar uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade,\u00a0as pessoas n\u00e3o v\u00e3o voltar\u00a0para a escola. E se voltarem, \u00e9 prov\u00e1vel que n\u00e3o permane\u00e7am\u201d, alerta Maria Margarida Machado<\/p>\n<\/div>\n<p>Sonia Couto refor\u00e7a que n\u00e3o h\u00e1 incentivos para que estados e munic\u00edpios ofertem a EJA, delegando a obrigatoriedade para a sociedade civil. Os cursos de licenciatura e pedagogia tampouco oferecem uma\u00a0forma\u00e7\u00e3o de professores\u00a0para a\u00a0modalidade de maneira adequada.<\/p>\n<p>\u201cA EJA precisa ser vista como pol\u00edtica p\u00fablica, e n\u00e3o como programa ou caridade. Mas n\u00e3o \u00e9 isso que acontece. No Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o (PNE), por exemplo, as quatro metas mais pr\u00f3ximas de atender a modalidade se encontram em posi\u00e7\u00f5es praticamente imposs\u00edveis de serem alcan\u00e7adas\u201d, lamenta.<\/p>\n<p>Para Maria Margarida, esse conjunto de neglig\u00eancias mostra que n\u00e3o entendem o significado da modalidade. \u201cSem ofertar uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade, pensada para o aluno e suas viv\u00eancias, com professores bem formados, as pessoas n\u00e3o v\u00e3o voltar. E se voltarem, \u00e9 prov\u00e1vel que n\u00e3o permane\u00e7am\u201d, alerta.<\/p>\n<h3>O retorno \u00e0 escola<\/h3>\n<p>Se parte do entrave da EJA est\u00e1 em garantir que estas pessoas tenham condi\u00e7\u00f5es de dedicar tempo para os estudos, outra vem da dificuldade de ressignificar a escola.\u00a0\u201cQuando nossos alunos de EJA chegam aqui, temos que trabalhar com a autoestima deles, porque se sentem fracassados\u00a0e incapazes. A escola n\u00e3o pode perder de vista todos esses sentimentos e a bagagem de vida que estes alunos trazem, porque tudo isso interfere na aprendizagem\u201d, afirma Eva Chow, coordenadora de projetos do Centro Paula Souza.<\/p>\n<div class=\"olho olho-right\">\n<p>Sonia Couto pontua ainda que \u00e9 preciso faz\u00ea-los entender que foi a escola que fracassou, n\u00e3o eles<\/p>\n<\/div>\n<p>Sonia Couto pontua, ainda, que \u00e9 preciso faz\u00ea-los entender que foi a escola que fracassou, n\u00e3o eles, e que o ambiente onde est\u00e3o agora \u00e9 diferente daquele onde se sentiram humilhados\u00a0ou jamais acessaram.<\/p>\n<p>\u201cTemos que mostrar que s\u00e3o pessoas de muita coragem para voltar e enfrentar esse desafio, ou para os que nunca estiveram em uma escola, que s\u00e3o capazes de aprender. Mais do que isso, que eles j\u00e1 t\u00eam muito conhecimento acumulado por meio de experi\u00eancias ao longo da vida e que esses saberes s\u00e3o t\u00e3o importantes quanto os curriculares. Depois de entender isso, eles deslancham\u201d, diz Sonia Couto.<\/p>\n<p>Foi assim para Ademildo Teixeira. A \u00faltima vez que ele pisou em uma sala de aula foi aos 14 e s\u00f3 retornou 43 anos depois, aos 57, gra\u00e7as ao apoio que teve das filhas, ambas professoras, para que voltasse a estudar.<\/p>\n<p>\u201cTive que sair da escola para sustentar a minha fam\u00edlia\u201d, conta. Assim como ele, a maioria dos que deixaram a escola, 41% segundo a\u00a0PNAD de 2017, o fizeram porque precisavam trabalhar.<\/p>\n<div class=\"box box-right\">\n<p>\u201cOs in\u00fameros questionamentos \/\u00a0Surgidos um ap\u00f3s o outro \/\u00a0A cada nascer de um novo dia. \/\u00a0S\u00e3o momentos de aprendizados \/\u00a0Provocados pelo que me foi revelado \/\u00a0Ampliando o horizonte do meu conhecimento\u201d \u2013\u00a0Trecho do poema \u201cQuestionamentos\u201c, de Ademilton Teixeira Sobrinho.<\/p>\n<\/div>\n<p>O que o atraiu de volta foi seu amor pelas palavras e a vontade de publicar um livro de poesias, bem como uma maior estabilidade financeira. Ao final deste ano, Ademildo concluir\u00e1 o Ensino M\u00e9dio na EJA do Instituto Federal de Goi\u00e1s (IFG) e prestar\u00e1 vestibular para o curso de Letras.<\/p>\n<p>Eva Chow explica que na EJA \u00e9 fundamental trabalhar levando em considera\u00e7\u00e3o a hist\u00f3ria de vida dos alunos, respaldadas por muito di\u00e1logo e autonomia.\u00a0\u201cTemos que trabalhar com projetos, autoavalia\u00e7\u00e3o, trabalhos em grupo, porque provas n\u00e3o fazem muito sentido. Al\u00e9m disso, muitos v\u00eam com trauma da avalia\u00e7\u00e3o, porque era o momento em que repetiam de ano\u201d, lembra Eva.<\/p>\n<p>Dona Eda Luiz, gestora do\u00a0Centro Integrado de Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos\u00a0(CIEJA) Campo Limpo, em S\u00e3o Paulo, deixa sua recomenda\u00e7\u00e3o, fruto de mais de 20 anos de experi\u00eancia ensinando e aprendendo com jovens e adultos exclu\u00eddos da escola.<\/p>\n<p>\u201cEssas pessoas buscam a escola para pertencer a um mundo que cobra muito, mas n\u00e3o oferece oportunidades iguais.\u00a0Ent\u00e3o a escola tem que oferecer isso, al\u00e9m de\u00a0respeito, escuta atenta, reconhecimento de diferentes culturas,\u00a0protagonismo, aprendizagem significativa, e constru\u00e7\u00e3o coletiva dos conhecimentos\u201d, diz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A\u00a0Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos (EJA)\u00a0pode ser vista\u00a0como o \u00e1pice do retrato das desigualdades sociais e econ\u00f4micas do Brasil. Isto porque congrega em si duas faces: as fragilidades de uma escola excludente diante da diversidade e, no outro extremo, o direito de aprender independentemente da idade. Com isso, carrega tamb\u00e9m a responsabilidade de n\u00e3o excluir [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":739,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_joinchat":[],"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-1980","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/centrobrasileirointegrado.com.br\/mg\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1980","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/centrobrasileirointegrado.com.br\/mg\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/centrobrasileirointegrado.com.br\/mg\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/centrobrasileirointegrado.com.br\/mg\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/centrobrasileirointegrado.com.br\/mg\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1980"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/centrobrasileirointegrado.com.br\/mg\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1980\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/centrobrasileirointegrado.com.br\/mg\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/centrobrasileirointegrado.com.br\/mg\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1980"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/centrobrasileirointegrado.com.br\/mg\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1980"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/centrobrasileirointegrado.com.br\/mg\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1980"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}